De onde você vê?

Publicado em http://ctrlaltdanca.com/2014/05/07/textos-nihil-obstat-gabriela-alcofra-e-danielle-greco-compartilham-impressoes-sobre-o-espetaculo-da-j-gar-cia-danca-contemporanea/

Depois de assistir a Nihil Obstat, da J.Gar.Cia Dança Contemporânea, no aconchegante espaço da Capital 35 em São Paulo, saio com perguntas que vão para além das características e escolhas daquele espetáculo, que me fazem refletir sobre a dança, seu mercado cultural e minha posição enquanto público, criadora e performer.

São Paulo é uma cidade muito grande, que aporta uma pluralidade cultural, além de uma efervescência e produção crítica. Sem entrar nos pormenores das dificuldades das produções culturais – que, julgo eu, fazem parte de um sistema maior e não afetam somente São Paulo, mas todo o Brasil – vejo aqui escolhas estéticas coexistindo, e modos de pensar também. No entanto, a minha questão é: somos assim tão compreensíveis com a diferença?

Minha impressão (que é ainda uma lente grossa, um primeiro pensamento e, por isso, ainda cru e generalizado) é que estamos, na maior parte das vezes, insatisfeitos com o que vemos. Sei que parece um pouco pessimista, mas me soa que nesse exercício crítico (que pode ser super saudável), e na ansiedade de sempre querer algo novo e diferente, tudo sempre deixa a desejar. O eco que me chega aos ouvidos se parece, de alguma forma, como: se tem muita ideia, falta movimento; se tem muito movimento, falta profundidade; se tem ideia e movimento, falta coesão; se tem coesão, falta emoção… E essa é uma roda sem fim.

Sinto que às vezes nos isentamos dessa responsabilidade compartilhada da manutenção de algo que nos agrade – e do fazer essa manutenção enquanto produção ativa e não apenas enquanto julgamento. É claro que o exercício crítico, o olhar apurado e todos os “feedbacks” são elementos fundamentais para que haja algum diálogo na produção artística, mas como podemos ponderar mais, fazer mais, compreender mais estando no lugar do outro? Sim, pois a impressão (de novo as lentes grossas) é a de que, depois do espetáculo, sempre comentamos algo sobre o que faríamos se ele fosse nosso – não tentamos o exercício de pensar através do olhar do outro.

Não, o espetáculo da J.Gar.Cia Dança Contemporânea não é sobre isso exatamente, mas acabou se tornando um ponto chave para trazer essa discussão à tona. Nihil Obstat tem uma escolha clara pela plasticidade tanto do corpo, que se movimenta com vigor, presença e virtuosismo, quanto dos elementos cênicos – seja pelas paredes com pichações, os objetos utilizados em cena ou até mesmo pela casa que nos recebe a céu e cozinha abertos.

Sozinho em cena, Jorge Garcia dá a ver o risco, o acaso, a determinação. Mesmo só, ele não se torna protagonista da cena. Com seu corpo, ele conduz olhares, passagens, recortes na relação do corpo com o objeto e do objeto com o espaço. O tempo todo em cena, um cavalo de brinquedo amarrado tenta caminhar e sempre cai porque está preso.

O que nos prende nesse momento? Qual é o motor que nos faz caminhar? Ou ainda: quem nos levanta para que possamos continuar caminhando?

De onde você vê?

As escolhas de Jorge assumem uma posição na dança – assim como a minha escrita, a sua dança, o seu pensamento, a minha dança, a nossa dança.

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